Vagas para deficientes
A lei de cotas abriu oportunidades para os portadores de deficiência. Mas as empresas precisam se preparar para recebê-los
Há 45 anos, a paralisia infantil atrofiou uma ds pernas de Roberto Garijo. Era uma criança de apenas um ano de idade. Desde então, ele caminha com a ajuda de muletas. A deficiência, porém, não o impediu de desenhar uma trajetória profissional de sucesso e hoje ele ocupa um cargo na área de televendas da Kimberly-Clark,uma das maiores fabricantes de papel d país.Garijo chegou à empresa há cerca de uma ano e meio, depois de alguns meses procurando um emprego melhor do que ele tinha na ocasião. A nova oportunidade apareceu graças a uma lei em vigor desde 2001 e que, lentamente, vai abrindo as portas do mercado de trabalho para os portadores de algum tipo de deficiência. Batizada de Lei de Cotas, ela determina que companhias com mais de 100 funcionários devem reservar pelo menos 2% de seus postos de trabalho para deficientes. Para organizações com mais de mil colaboradores, o percentual sobe para 5%. “A legislação ajuda no combate ao preconceito e estimula as empresas a criar mais oportunidades para essa parcela da sociedade”, comenta Marcelo Vicentini, sócio da DesEnvolve, consultoria especializada no assunto.
Desde 2001, quando entrou em vigor, o número de deficientes contratados no país saltou de 601 para mais de 60 mil. Mesmo assim, há ainda um a=caminho a percorrer. Segundo a Delegacia Regional do Trabalho, das 7,5 mil empresas brasileiras elegíveis pela lei, 5,2 mil iniciaram o trabalho de contratação, e nem todas contemplam tudo o que a legislação estabelece. “O objetivo não é apenas obrigar as empresas a abrir vagas, mas também praticar a inclusão social dos portadores de deficiência”, diz Ana Paulina Camargo, chefe da fiscalização da DRT. Ana Paulina toca no ponto central: o ambiente de trabalho nas empresas brasileiras está preparado para receber deficientes? As instalações físicas são adequadas? Os demais funcionários estão conscientes de que não devem ser paternalistas e tampouco preconceituosos? “O importante é não criar estigmas”, adverte Fernanda Petta, da área de recursos humanos da Kimberly-Clark.
Atualmente a Kimberly possui 110 deficientes entre seus dois mil funcionários. Para receber essa tropa, ela desenvolveu um cuidadoso trabalho de preparação. Na fábrica, uma especialista em libra, a linguagem de gestos utilizada por surdos e mudos, deu aulas para que os operários pudessem se comunicar com os deficientes auditivos recém-chegados. A “intérprete” fez tanto sucesso que acabou contratada pela empresa. Fernanda também incentivou que os próprios trabalhadores indicassem nomes de conhecidos, com algum tipo de deficiência, para preencher as vagas abertas. Com isso, a integração foi mais rápida. Fernanda percebeu que estava no caminho certo quando gerentes de outras áreas a procuraram e dissera: “Ouvi comentários tão positivos que gostaria que deficientes trabalhassem em minha equipe.”
A experiência da Des-Envolve mostra que a sensibilização dos funcionários é o primeiro passo para a inclusão dos deficientes. “Todos devem estar mobilizados em torno do assunto, do presidente ao operário na fábrica”, diz Fabrice Antonio, sócio da Des-Envolve. A filial brasileira da Schering possui hoje 18 deficientes em seu quadro de pessoal. Antes de contratá-los, porém, fez sua lição de casa. Uma empresa de eventos foi contratada para ministrar palestras de conscientização sobre o assunto. Até uma peça de teatro foi apresentada para os empregados. O tema: a integração de portadores de deficiência.
Para um deles, que vivia sem uma das pernas, a empresa doou uma prótese. Todos passaram por cursos de qualificação, sobretudo da área de informática. “Quando eles chegaram à empresa, o efeito no ambiente foi muito positivo”, diz Elisabete Rello, diretora de RH da Schering. “Eles nos trouxeram lições de vida.”
O maior obstáculo das empresas tem sido encontrar deficientes com capacitação para atuar em seus quadros. A Accor, líder no setor de hotelaria, passou a financiar uma organização não- governamental responsável pela formação profissional de deficientes. “Não adianta ficar reclamando que é difícil encontrar deficientes já capacitados”, diz Carla Beira, diretora executiva da Accor. Ao mesmo tempo, contratou a Des-Envolve para adaptar os locais de trabalho para receber os portadores de deficiência. Essa iniciativa resolveu apenas parte do problema, como alerta Carla. “De que adianta preparar a empresa da porta para dentro se os deficientes não conseguem chegar até elas?”, pergunta.
“Eles enfrentam dificuldade para tomar um ônibus ou almoçar em um restaurante.” Fora isso, os deficientes são obrigados a superar obstáculos no mercado de trabalho semelhantes aos de outros trabalhadores, como revela Artur Copiano Neto, assistente administrativo de vendas da kimberly. Após um forte reumatismo aos 21 anos, que o obrigou a colocar próteses nos fêmures das pernas, Copiano, hoje com 49 anos, garante que a deficiência não o impediu de encontrar empregos. “Meu grande trunfo é o estudo. Mesmo depois de colocar as próteses nas pernas, nunca deixei de estudar. Quando fui chamado para uma entrevista na Kimberly, não fui contratado logo de cara, pois a vaga aberta era fora da minha especialidade. Quando abriram a vaga em vendas me ligariam de novo. Dou treinamentos, ando para cima e para baixo mesmo com muletas”, completa Copiano. Ou seja, uma das principais chaves para a cidadania continua sendo a educação.
Um ambiente amigável
Como preparar sua empresa para receber deficientes
Apóie iniciativas externas ou crie programas internos de formação profissional para deficientes.
Faça um mapeamento do local de trabalho e corrija os pontos de pouca acessibilidade e funcionalidade para os portadores
Identifique os cargos que podem ser ocupados por profissionais deficientes
Recrute e selecione os profissionais adequados para as vagas disponíveis, respeitando suas limitações físicas
Promova um trabalho de capacitação e conscientização dos lideres das áreas onde os portadores de deficiência trabalharão
Desenvolva as ações de sensibilização junto aos demais funcionários da companhia
Acompanhe permanentemente o desempenho dos portadores de deficiência, corrigindo eventuais dificuldades