Pelo bem geral do planeta
Empresas devem transformar a responsabilidade socioambiental em uma de suas áreas de negócio para garantir seu futuro e o das próximas gerações
Fazer o bem pelo planeta e gerações futuras transformou-se em uma espécie de fantasma corporativo. Seja por meio de estimulo de leis e benefícios ou em razão do medo de sofrer multas pesadas, a maior parte das empresas sabe que, um dia, deverá assumir a responsabilidade pelo lixo que produz. O assunto esquentou com a divulgação, no começo do ano, de um estudo encomendado pela organização das Nações Unidas (ONU), que responsabiliza as atividades humanas pelo aumento no aquecimento da terra. Até o governo Lula criou uma Frente Parlamentar Ambientalista, coordenada pelo deputado Sarney Filho (PV-MA), para apoiar políticas públicas e ações que promovam o desenvolvimento sustentável.
Um dos impactos da corrida pela responsabilidade socioambiental é a escassez de consultores em sustentabilidade. Consultorias, ONGs e órgãos públicos estão disputando esses profissionais com as corporações, disse o jornal Valor Econômico na Edição de 14 de fevereiro.
Quem ainda não tomou uma atitude passou a ser malvisto pela sociedade- e corre o risco de ver seus negócios desabarem. Por isso, iniciativas como reciclagem de papel e de copos plásticos, economia de energia ou apoio a instituições de caridade já podem ser encontradas nos balanços financeiros de companhias de diversos portes e setores.
Mas, na opinião dos especialistas, não basta “passar p chapéu” pelas causas assistencialistas. “Deve haver equilíbrio entre os interesses da corporação e os do ser humano. Não adianta ter o melhor trabalho de reciclagem de papel se ele não melhorar o planeta. Reciclar ou cuidar de uma creche é um pressuposto. É cidadania e não responsabilidade social”, diz Fabrice Antonio, Sócio-fundador da Des-Envolve Soluções Humanas.
Luis Iseppe, do Instituto Rever, outra consultoria especializada em meio ambiente, concorda: “A primeira fase, de filantropia e voluntariado, já foi incorporada por todo o mundo. Foi fundamental, mas é necessário chegar à segunda fase, em que além de fazer o bem é imprescindível ser responsável pelo o que se faz”, diz o especialista. “Muitos setores da economia obtêm altos lucros, mas o preço disso para a sociedade é pesado e se traduz em impacto ambiental ou relações injustas com clientes e fornecedores. A empresa faz melhorias na cidade onde está localizada, mas não tem um modelo de negócios sustentável e acaba quebrando os parceiros.
A sustentabilidade como negócio
Para Iseppe e Antonio, a nova responsabilidade socioambiental envolve ações específicas para cada setor. Uma mineiradora, por exemplo, deve controlar seus resíduos e não deixar a lama acumular – para evitar desastres como o ocorrido em janeiro em Minas Gerais, quando dois bilhões de litros de lama, resultantes da extração de bauxita, vazaram das barragens da mineiradora Rio Pombas Cataguases e inundaram três municípios. “As iniciativas devem ser integradas à estratégia de negócios da companhia e ao talento de seus profissionais. Uma fabricante de computadores, por exemplo, obtém melhores resultados ao se envolver com a inclusão digital de comunidades carentes. Já uma fabricante de papel pode ter excelente atuação no reflorestamento e na reciclagem de papel”, acredita Antonio.
De acordo com o consultor, quando a empresa foca suas ações, três movimentos acontecem: aumento na motivação e no envolvimento da equipe, melhores resultados e pontos positivos para a sua imagem. “Quem sabe exatamente o que fazer é como fazer, comunica isso de uma forma melhor para os parceiros, para o governo e abre inclusive novas oportunidades de negocio”, diz Antonio, acrescentando que o mercado exterior é muito receptivo para quem é responsável socialmente.
“Se as companhias olharem para as oportunidades da sustentabilidade como olham para suas escolhas estratégicas, elas terão uma fonte extremamente rica de oportunidades, inovação e vantagem competitiva”, complementa Iseppe, citando o professor da Harvard Business School Michael Porter. Hoje, prossegue o especialista, as empresas que procuram o instituto geralmente desenvolvem ações isoladas que são vistas como custos e cujo orçamento é o primeiro a ser cortado em caso de crise.
Outro perfil de cliente é o da companhia que já participou do índice criado pelo Instituto Ethos. “Eles têm em mãos os resultados do que fizeram e do que precisam realizar, mas não sabem como”, diz.
Bom para as finanças
Uma das empresas que já despertou para a questão foi a Y. Takaoka Empreendimentos, que atua na construção de condomínios de luxo. “As pessoas estão percebendo que ser amigável com o meio ambiente faz bem inclusive para o bolso”, defende o diretor-presidente Marcelo Takaoka.
Em 2002, após cinco anos de estudo, a empresa lançou em São Paulo o Residencial Gênesis, que ganhou um segundo local era rico em vegetação nativa da Mata Atlântica, a incorporadora decidiu ocupar apenas o que já estava degradado e era usado como pasto. Além disso, o projeto contemplou a capacidade hibrida da bacia local, ou seja, as casas são abastecidas pela água que nasce na região.
Apesar de ser um exemplo claro do que uma companhia pode fazer pelo meio ambiente com base no seu escopo, a Takaoka precisou dos serviços de uma ONG para a construção do Gênesis II. “Assumimos o compromisso de plantar 50 mil árvores, usar apenas madeira certificada pelo Conselho Brasileiro de Manejo Florestal (FSC) e mais uma série de programas que foi recompensadora”, diz.
Para se ter uma idéia, de acordo com o engenheiro, os clientes valorizam tanto esse tipo de iniciativa que pagam por um condomínio ecológico até 20% a mais do que desembolsariam em um empreendimento tradicional. “Para nós, não é benemerência, é parte do negócio.
“E pode ter certeza de que investidores já ganharam dinheiro com o projeto”, garante. A companhia pretende agora construir condomínios nos mesmo moldes em outras regiões. O primeiro estará localizando próximo a Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
Takaoka ainda acrescenta que as empresas que se preocupam com a questão da sustentabilidade já estão faturando, em média, 15 vezes mais do que as companhias que integram o ranking feito pela Dow Jones e pela Bovespa. “O consumidor mostra sua preferência. Só sobreviverão os que forem importantes para a sociedad.